Donizetti: incansável na busca de si e da arte arcoense

Donizetti: incansável na busca de si e da arte arcoense

Gente Nossa

Donizetti: incansável na busca de si e

da arte arcoense

Ao ouvir sobre a proposta do Gente Nossa, no sentido de entrevistar e homenagear pessoas diferenciadas que têm vínculos e histórias de suas vidas entrelaçadas com Arcos, Donizetti Bernardes contou: “Certa vez, um amigo me disse que eu era uma peça folclórica e, no momento, não gostei. Hoje, lembro dele com doçura, por ter sido a primeira pessoa que falou para mim que eu iria ficar na história de Arcos. Fico muito feliz com isso”.


Como não poderia deixar de ser, a conversa teve como espinha dorsal a cultura e a arte de Arcos e, com a autoridade de quem vive a cultura da cidade há tanto tempo, Donizetti iniciou afirmando: “Na década de 80 até 90, a cidade viveu de arte, comeu arte… ela engolia arte!” e detalhou: Tinha grupos de teatro, dança, desfiles maravilhosos, numa tradição traçada e que seguia, por exemplo: a Festa da Padroeira, a Semana Santa, os desfiles cívicos, a Festa da Cidade, Natal, a Festa Junina, que era na frente da Prefeitura”. A Festa Junina durava três ou quatro dias, toda coordenada pela Prefeitura. “Então, vivia-se de arte”.

A Casa de Cultura de Arcos


Ele contou: “Em 1985, o então prefeito Plácido Ribeiro Vaz reuniu 12 engenheiros para realizar a Casa de Cultura (um monumento à cultura)”. Segundo Donizetti, Plácido concebeu e acreditava na arte como a personalidade de Arcos. Seria o grande atrativo e conceito turístico para a cidade. Naquela época, o “Lalado” (Geraldo Magela Rodrigues) era o Diretor da Casa de Cultura e eu, o Secretário de Cultura de Arcos”. Quando inaugurou, algumas pessoas se referiam à Casa de Cultura como um “elefante branco”. “Nunca foi um elefante branco. Acho que ela está esquecida no momento, devido à descontinuidade de ações, por administrações que não estão tão ligadas à cultura, como naqueles idos de 85, quando foi concebida a proposta do prefeito Plácido.” – avalia.


“No dia 16/07/88, inauguramos e eu fui o primeiro bailarino a pisar no palco da Casa de Cultura, com o espetáculo de dança Antologia Urbana, seguido da peça teatral Brasil, Juízo Final. Plácido acreditou que a Casa de Cultura seria o eixo do turismo em Arcos”. Continuou, entusiasmado pelas memórias: “Nós conseguimos. Tivemos movimentação turística bacana, porque a Casa trouxe grandes nomes para Arcos: “a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral da COPASA, Ilvio Amaral e Canguçu, Carlos Alberto com Priscila Camargo, peças do Rio de Janeiro, São Paulo e outras da região. As pessoas se vestiam bem para vir à Casa. Os patrocinadores procuravam a produção para apoiar a vinda dos espetáculos. Havia cursos de teatro, difundiam-se polos nos bairros. Arcos ficou reconhecida nacionalmente por sua movimentação cultural, nesse período”.

Secretário de Cultura


“Fui Secretário de Cultura por 23 anos e, em minha opinião, Arcos está sendo abandonada cultural e socialmente – o que me deixa muito triste, e poderia ser resolvido, com a criação de conselhos de bairros, elegendo-se um representante que levaria todos os problemas de seu bairro com sua cultura, numa reunião de todos os representantes e, a partir daí, selecionaria e resolveria os problemas por bairros” – uma sugestão que Donizetti não deixa somente para a cultura, mas para a gestão pública da cidade, por meio da educação, saúde e cultura.

… nasce uma estrela


Donizetti nasceu em Arcos, em 24/02/1956, “numa família de classe média, que residia na rua Augusto Lara, no parto feito por Dona Irene, mãe do meu amigo Ló”. Continuou: “Estudei na escola Yolanda Jovino Vaz, depois no ‘Maricota’ numa ‘sala de lata'” – e explicou: “Nos anos 60/70, o então governador Magalhães Pinto mandou as “escolas da lata”, evitando construções demoradas e caras; hoje, são conhecidos como contêineres. Naquela época não havia escolha e a gente queria estudar. Éramos a geração ‘baby boomers”, da geração ‘bênção pai, bênção mãe’ e isso tudo era muito bom. Tenho o ‘segundo grau’ concluído no Colégio Comercial de Arcos e, dali pra frente, autodidata, além de incontáveis cursos com grandes mestres, como: Klaus Vianna (coreógrafo, professor e bailarino), Fernando Peixoto (escritor, tradutor, ator e diretor teatral) e Carmen Paternostro (professora doutora da Escola de Dança da UFBA, dançarina, coreógrafa e diretora de espetáculos), entre outros”.

… suas artes


O Donizetti artista nasceu com a declamação do poema Gato de Zalina Rolim (educadora, poeta e escritora) e cantando Bom Rapaz (música do período da Jovem Guarda), no auditório da Yolanda Vaz.
Com o grupo Corpo Vivo, desde 2002, montou mais 80 espetáculos, “num processo de identidade, de autodescobrimento, interação e evolução, da arte e da pessoa, através da dança e da expressão corporal, numa dimensão que eu sequer imaginava existir”. Hoje, o grupo Corpo Vivo é dos integrantes e de seus pais e se prepara, na montagem de um espetáculo que falará das cartas de amor. Será apresentado, em breve, no Encontro dos Motociclistas”

Grupo Corpo Vivo


“Com a APAC, montamos o espetáculo teatral “José”, que foi além de Arcos. Foi encenado em São João del Rei”. “Trabalhar com recuperandos, pessoas que sequer sabiam da existência das artes cênicas, além de um desafio e de um retorno extraordinário, à medida que eles demonstram esse descobrimento de si e das artes, no caminho de sua reinserção na sociedade”. Agora, Travessia, que será apresentado no dia 30 de junho, no auditório da PUC Minas, contará os 20 anos de história da instituição.


Numa entrevista, na qual décadas de vida do arcoense e das nossas artes vão muito além deste texto, resta a vontade de escrever e contar mais sobre esse artista Donizetti Bernardes, “Doni”: brilhante, singular e plural Gente Nossa.

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