Constelação Familiar

Constelação Familiar

Um caminho para solucionar problemas pessoais e familiares que atravessam gerações

Aline Fonseca, consteladora, psicóloga e comunicadora

Um caminho para solucionar problemas pessoais e familiares que atravessam gerações

Você já ouviu falar de Constelação Familiar? Sabe o que significa realmente? 

Em síntese, a Constelação Familiar foi fundada pelo alemão Bert Hellinger, que nasceu em 1925 e morreu em 2019.  De acordo com informação do site oficial “Hellinger”,ele estudou filosofia, teologia e pedagogia.

Trabalhou como missionário para uma ordem católica entre os Zulus, na África do Sul, durante 16 anos. Depois disso tornou-se psicanalista e acumulou várias formações, inclusive em Programação Neurolinguística.

“Uma pessoa está em paz, quando todas as pessoas que pertencem à sua família têm um lugar em seu coração” – citação atribuída a Hellinger. De acordo com informação publicada no site Constelação Familiar, Hellinger observou, na tribo Zulu, o “grande respeito que possuíam por seus pais e a forma como as mães Zulus tratavam suas crianças”. Também verificou que dentro do ambiente da tribo existiam poucos conflitos familiares.  “Percebeu que o que atua por traz dos valores morais é a consciência leve e pesada”, reconhecendo as “leis universais” que, segundo ele, “atuam sobre todos os relacionamentos humanos: pertencimento, ordem e equilíbrio”.

O papel de cada um na família

Para abordar o tema Constelação Familiar à luz do conhecimento teórico e prático, o CCO recorreu à psicóloga clínica Alice Fonseca, que utiliza a Abordagem Sistêmica e, na condição de terapeuta, aplica a Constelação Sistêmica Familiar com Bonecos. Ela utiliza o método não na condição de psicóloga, mas de consteladora.

Alice sintetiza que a Constelação Familiar tem o objetivo de entender qual é a causa de determinado conflito pessoal e de determinados problemas familiares que atravessam gerações.

E como é que funciona?  Por meio de dinâmicas de grupo ou individualmente (com a utilização de bonecos, prática utilizada pela nossa entrevistada).  

Para os consteladores que aplicam o método em grupo, os integrantes representam o problema e as pessoas envolvidas, em forma de teatro. Ou seja, não são os familiares do constelado que participam do grupo. A finalidade é que o interessado tenha uma visão externa do que está acontecendo.

A sessão com a utilização bonecos geralmente é mais procurada em cidades pequenas, devido a questões de sigilo. Com a orientação e instrução do constelador (profissional que aplica o método), eles são movimentados com a mão do constelado (quem está fazendo a Constelação).

Podem ser trabalhadas, por exemplo, questões de geração passada, suicídio na família e aborto. “Eu peço que os bonecos sejam organizados da forma que está o sistema do Constelado naquele momento. Onde você coloca seu pais? Onde você coloca seu irmão? Onde você coloca seu filho? E depois vamos, juntos/juntas, organizar a forma da pertencimento, equilíbrio e ordem. É muito profundo, porque as emoções são colocadas na prática; e mesmo sem a comprovação científica, se há uma abertura do Constelado, os resultados são positivos”, relata.

Relações conflituosas na família – A Constelação Familiar é indicada, principalmente, para pessoas que mantêm relação conflituosa com familiares, por exemplo, para quem não entende o motivo de não gostar do pai ou da mãe ou de não conviver bem com determinado irmão; ou para a mãe ou pai que gosta mais de um filho do que do outro. “Questões que, de fato, trazem uma convivência tóxica”, sintetiza.

Em sua experiência com o método, Alice Fonseca formulou conclusões sobre algumas causas de conflitos: “Em sua maioria, percebo que as pessoas não aceitam viver a hierarquia familiar; às vezes se sentem mãe da própria mãe; ou o irmão mais novo age como o mais velho”. Como solucionar isso? “Os resultados estão aí, no equilíbrio familiar, onde o Constelado entende e aceita a hierarquia familiar. Exemplo: se eu sou o mais novo, tenho que respeitar o mais velho”.

É claro que essa descrição é apenas um viés do trabalho a ser realizado, que tem outras particularidades.

“Dedo podre” para relacionamentos

Outra indicação do método é para pessoas que não entendem o motivo de não ter relacionamento afetivo, “que acham que têm o ‘dedo pobre’ para se manter em um relacionamento duradouro”.

Pertencimento, ordem e equilíbrio

A consteladora explica sobre as três leis naturais e psíquicas que regem os relacionamentos humanos, de acordo com a teoria de Hellinger: Pertencimento: Amor/Perdão: “Amar a todos independente de quem for”. Ela cita como exemplo o caso em que um ente da família cometeu suicídio e que, também, deve ser amado. E ainda: A mãe que teve cinco filhos, mas um foi abortado. “Ela continua com cinco filhos, essa criança tem que fazer parte, pertencer à família!”; Equilíbrio: Dar, tomar e receber. Exemplo: “A pessoa precisa aprender a dar, sem esperar receber algo em troca”; Ordem: “O lugar de cada um na família, respeitando a hierarquia. Exemplo: o filho tem que respeitar o pai, pois vem antes dele”.

Durante a sessão, se o constelador perceber que essas três leis estão desorganizadas, irá orientar ao constelado.

Prática complementar de saúde

Embora não tenha comprovação científica, de acordo com divulgação da Agência Senado, de 24 de março, “a constelação familiar faz parte das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), que foram institucionalizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como recursos terapêuticos transversais, juntamente com a acupuntura, a homeopatia e a terapia de florais, entre outras”.

Ainda de acordo com a mesma divulgação, “são práticas que, de acordo com o site do SUS, buscam ‘a prevenção de doenças e a recuperação da saúde com ênfase na escuta acolhedora’ e podem estar presentes na Rede de Atenção à Saúde. Também é relatado que foram realizados em todo o país, em 2019, 1.838 procedimentos de constelação familiar como PICS na atenção primária à saúde (citam como fonte dessa informação, o próprio SUS).

Varas de Família e casos de violência doméstica

De acordo com divulgação da Agência Senado, do dia 18 de março, 16 estados e o Distrito Federal usam a constelação familiar em Varas da Família e em casos de violência doméstica. Citaram como fonte da informação o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Nossa entrevistada disse que está havendo uma visão considerável desde que, em 2012, um juiz baiano, Sami Storch, aplicou em dois casos e conseguiu resultados positivos. Detalhes foram representados durante a sessão de julgamento e para ele foi esclarecedor. A partir de então, o método passou a ser difundido no Brasil.

Alerta para o uso inadequado do método

“Existem profissionais despreparados que cobram até mil reais em uma sessão. Absurdo? Sim! Porque não há necessidade de um valor tão alto para ajudar uma pessoa em apenas uma sessão” – diz a psicóloga Alice Fonseca.

A consteladora alerta sobre situações nas quais a constelação familiar é utilizada de forma errada, por pessoas despreparadas, o que, realmente, representa um risco.

Em pesquisas na Internet encontramos artigos com interpretações negativas da constelação familiar. Segundo nossa entrevistada, isso mostra desconhecimento do que realmente é a Constelação Familiar de Bert Hellinger ou a pessoa não a vivenciou de forma correta. “O que se passa na sessão são atos e sensações fortes de sentimentos; as emoções ficam à flor da pele e é, sim, perigoso para que todo cidadão possa ter acesso. […]. Infelizmente, como qualquer pessoa pode fazer o curso e ser Constelador, creio, sim, que esse é o motivo pelo qual pode havermá interpretação da Constelação Sistêmica”, explica.

Ainda segundo a psicóloga, essa falta de regulamentação fez com que esse método ficasse “solto no mercado”, possibilitando que pessoas demá índole façam dele uma fonte de renda, contudo, sem utilizá-lo da maneira correta. “Existem profissionais despreparados que cobram até mil reais em uma sessão. Absurdo? Sim! Porque não há necessidade de um valor tão alto para ajudar uma pessoa em um apenas uma sessão”, faz o alerta.

Outra “crítica” apresentada em artigo postado na Internet é que Bert Hellinger, que era católico, leva algumas considerações da doutrina católica para a técnica. Com essa observação, Alice concorda e argumenta: “Sim, de fato, acho que isso acontece. Mas qual a outra forma de hierarquia que devemos seguir? Em sua maioria, quem procura a Constelação é Cristão”.

Quanto à observação do fundador da constelação familiar de que, em certos casos, a homossexualidade pode surgir quando uma criança é pressionada a assumir o lugar de “uma pessoa do sexo oposto no sistema familiar”, nossa entrevistada concorda categoricamente.    Ela afirma essa possiblidade, fundamentada em uma situação real que presenciou em uma sessão: “a questão da homossexualidade de um Constelado que queria agradar a mãe que havia perdido uma menina”.

Ao final da entrevista, a psicóloga comenta que, independentemente da técnica, o fato de o indivíduo procurar ajuda e ser orientado por bons profissionais é o que importa. “Esse indivíduo já percebeu que algo está errado e que ele precisa entender o que está acontecendo na vida, no sistema onde ele está inserido. Bons profissionais estão aí para isso; pessoas que, antes de tudo, desejam que o outro encontre o caminho que ele vai seguir, sem mágoas, com sentimentos positivos em relação a ele, aos outros e com a vida”.

Alice Fonseca realiza atendimentos presenciais e on-line. Além da graduação em Psicologia, é formada em Comunicação Social.

(Entrevista e Redação: Jornalista Rita Miranda – RP 14.621).

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