Arrependimento

(Artigo publicado pelo Jornal CCO impresso em 03/03/2018) – Edição 1938

Sebastião Correia da Silva

Arrependimento é um sentimento punitivo que se apossa das pessoas quando estas se conscientizam das consequências de uma malfeitoria que praticaram contra outras pessoas, contra os animais, contra qualquer outra coisa, ou contra si mesmas.  O arrependimento traz consigo outras consequências para a pessoa dominada por ele, principalmente quando as consequências do ato que o gerou não têm mais conserto. Eis que o arrependimento é pai do remorso e avô do desespero.

Há que se ressaltar que este sentimento afeta apenas pessoas sensíveis, pessoas de boa índole, dotadas de bons sentimentos, uma vez que pessoas insensíveis, de má índole, cascas grossas, não cultivam tal sentimento.  Estas últimas, por arrogância, empáfia e presunção, costumam dizer: “Eu não me arrependo de nada que fiz; só me arrependo do que não fiz”. Ledo engano! Devemos nos arrepender, sim, do mal que fizemos, bem como do bem que não quisemos ou não pudemos praticar. É horrível dizer: Se arrependimento matasse, eu já estaria morto!

Como bem diz a sabedoria chinesa, “dificilmente o homem vive até os 100 anos, mas arranja problemas para mais mil”. Realmente, o homem costuma arranjar problemas que podem trazer muito arrependimento, principalmente aqueles que trazem constrangimento, sofrimento e dor a outrem.  Quando a reparação da malfeitoria é difícil ou impossível, aí o arrependimento acaba virando remorso; o remorso costuma virar desespero, e, como se sabe, o remorso costuma matar as pessoas tomadas por ele.

O homem vive se arrependendo do que fez, bem como do que deixou de fazer.  Porém, para agir assim, o homem deveria ser mais seletivo e escolher o ato do qual se arrependa e do que não deve arrepender-se. Devemos nos arrepender sempre do mal praticado, bem como do bem omitido, embora a gente possa também arrepender-se da prática de um bem, principalmente quando o resultado é diferente do almejado. Todavia, o arrependimento do mal que foi feito é muito mais massacrante do que o do bem que não foi praticado. Sem comparação!

Um sujeito, um antigo amigo, criou um sobrinho, o qual sempre foi muito peralta, muito irresponsável, muito encrenqueiro.  Esse amigo me disse um dia: -“Em vez de ter dado leite ao meu sobrinho, eu deveria ter dado veneno e ninguém teria ficado sabendo. Hoje eu não estaria tendo os problemas que estou tendo por causa dele”. Que coisa, né! Com muita razão, o sujeito se arrependeu do bem que praticou porque o resultado foi diferente do desejado, o que lhe causava frequentes problemas relacionados ao mau comportamento do sobrinho.   

Um outro cidadão me confessou, sigilosamente, o desejo de matar um outro que o havia humilhado de forma muito injusta, por causa de um mal entendido da parte do agressor, que além de autoritário era toxicômano.  Então, como sempre, com parte da  turma do “deixa disto” a gente aconselha  outra saída, que não trará nenhuma consequência drástica e nenhum arrependimento, ou seja, a gente sugere a calma, a tolerância e o perdão. Dito efeito! Tal cidadão não matou ninguém, e hoje dá graças a Deus de não ter cometido um desatino, do qual poderia arrepender-se amargamente.  

De fato, o homem vive arrependendo-se do que fez e do que não fez.  Variando de pessoa para pessoa, porque estas são diferentes, a pessoa costuma arrepender-se de ter se casado; de ter se separado; de ter ficado solteiro; de ter filhos; de não ter filhos. A pessoa costuma se arrepender de ter comprado certo automóvel; de não ter comprado o mesmo carro; de ter comprado a casa na rua tal e não na outra rua; de ter feito uma casa de dois quartos e não de três; de ter bebido muito e ficado com ressaca; de ter comido muito e passado mal; de ter feito aquela malfadada viagem. Enfim, todos nós temos um ou outro motivo para algum arrependimento, por menor que seja.

Então, o melhor a ser feito é evitar toda e qualquer situação que poderá nos trazer arrependimento, pois a vida, por si só, já é cheia de atribulações, angústias e sofrimentos.  Convenhamos, não é fácil omitir-se de tudo para não termos motivos para nos arrepender, pois a própria omissão já pode ser  um motivo para ficar arrependidos. Entretanto, se for para ficarmos arrependidos, que seja pelo bem que não fizemos, pois poderemos ter outra de chance de fazê-lo. Ter arrependimento pelo mal que se tenha praticado é infinitamente pior. E bota pior nisto.

Por  falar em arrependimento, espero, sinceramente, que não fiquem arrependidos de lerem este texto.  Entretanto, se lerem as estupendas crônicas do Wanderlei de Paula Brito garanto que não terão nenhum motivo para se arrependerem.  Aliás, acho que se arrependerão pelo fato de não terem lido-as há mais tempo. Além de ser uma pessoa encantadora, o citado cidadão  é um cronista de mão cheia.

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