Professora de datilografia em Arcos nas décadas de 1980 e 1990

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 26/06/2021) – Edição 2108

O uso de dispositivos móveis com telas cada vez mais finas, imagens Ultra HD, que cabem na palma da mão parece algo comum. Porém, há algumas décadas, era uma realidade inimaginável. Até o início da década de 1990, a moda entre os jovens era aprender datilografia, para assim poderem ter um diferencial no mercado de trabalho.

Estefânia Maria de Macedo, 81 anos, moradora da região central de Arcos, foi uma professora de datilografia bastante popular e que teve muitos alunos. Em entrevista ao Jornal CCO, ela recordou dos tempos em que ensinava a datilografar.

Estefânia contou que havia finalizado o ensino médio e depois se formou como técnica em contabilidade, iniciando um trabalho de escritura rural. Conheceu a datilografia por meio do movimento de Jovens de Shalon, da Paróquia Nossa Senhora do Carmo. As aulas aconteciam embaixo do Salão Paroquial, ministradas pelo professor Sebastião Ferreira. “Então, foi com ele que eu aprendi a fazer datilografia”, comentou.

Por não estar gostando mais de trabalhar com escritura rural, decidiu ensinar datilografia. Ela contou que era a única em Arcos que ensinava esse ofício, porque assim que ela começou, a professora Vitória (“do João dos lotes”) havia parado de dar as aulas. “Depois que ela parou foi quando eu comecei a dar aula, foi quando eu decidi montar uma escola de datilografia. […] Eu comecei mais ou menos nos anos de 1980. Trabalhei com datilografia por 23 anos”.

Ela alugou um cômodo e abriu um escritório na rua Vereador João Veloso, perto do Cartório.

 

Chegou a ter 10 alunos por horário

Estefânia comprava suas máquinas de datilografar na cidade de Formiga. Eles vendiam e também faziam as manutenções necessárias. Em certa época, chegou a ter 12 máquinas de descrever.

Os pais procuravam a professora para fazer a inscrição de seus filhos e eles pagavam mensalmente. Ela disse que já chegou a ter até 10 alunos por horário. As aulas eram de segunda a sexta-feira, das 07 da manhã às 19 horas.

Estefânia disse que amava muito o trabalho: “Eu aprendi muito com a juventude, eu sempre achei muito bom trabalhar com jovem, eu adorava! Eu fiz muitas amizades, conheço meus alunos até hoje e, às vezes, a gente se encontra; e é muito bom recordar o tempo. Foi muito bom e muito compensativo”.

 

Era dos computadores

Com a novidade dos computadores, o número de alunos que queriam aprender datilografia foi diminuindo, afinal, as pessoas estavam interessadas em aprender a manusear o computador. Estefânia disse que até tentou se adaptar à nova tecnologia, porém, não conseguiu. “Quando surgiram os computadores, aí foi diminuindo muito e não estava compensando mais, aí eu parei. Eu até tentei me adaptar, mas eu achei tão difícil… até porque, eu já estava mais velha e a gente tem um pouco de dificuldade na aprendizagem”.

Foi naquele período que ela teve que encerrar as aulas de datilografia. Ela disse que ficou um pouco chateada, por ter que se separar dos jovens que eram seus alunos. “Então, não foi muito bom não, porque eu fiquei um pouco frustrada por ter que me separar da juventude, porque é muito bom trabalhar com jovens. Tem gente que fala que jovem é doido, mas não é de jeito nenhum, eles só não têm oportunidade para demostrar o que eles querem e o que eles podem fazer. Mas, quando se dá uma abertura pra eles, eles te abrem um campo enorme de ideias”, comentou.

Ela disse que ainda não aprendeu a usar computador e nem celular. Continua usando apenas o telefone fixo.

 

Alunos que se destacaram

Estefânia citou nomes de alguns ex-alunos que se destacaram profissionalmente: “Tem o Geraldo Adriano, que chegou até a me homenagear na Câmara Municipal, em 2019; Tem o Dr. Alessandro, que trabalha em Belo Horizonte, filho da Dona Auxiliadora; o Dr. Jadson, que é anestesista. Tem muitas enfermeiras como a Daiane, a Amanda, tem o Noé, que também é enfermeiro. Tem muito professores, tem muitos médicos”.

 

Ela comentou que até hoje recebe o carinho de todos seus ex-alunos sempre que os encontra.

Ao final da entrevista, Estefânia falou que é muito gratificante saber que ensinou todas essas pessoas a datilografar e que isso contribuiu para que se tornassem grandes profissionais. “Este foi um período muito agradável. É claro que em todas as profissões tem alguma coisa que chateia, mas eu nem me lembro de coisas que me chateassem na datilografia. Foi muita gente que fez concurso e que passou na época, e isso é muito gratificante pra gente. Gente que trabalhou no Banco do Brasil, na Nestlé e até médicos vieram aqui aprender datilografia, porque precisavam usar o computador e vieram aqui para aprender a digitar. Inclusive, veio aqui o Dr. Macmiller. Então, foi muito gratificante saber que eles subiram por ter o curso de datilografia”, finalizou.

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